Terça-feira, 31.01.12

Resgate

Líder do PS diz que, a acontecer um segundo resgate a Portugal, isso representaria um «falhanço da política do Governo». E acrescenta o líder socialista que já diz isto há «vários meses». Ora bem, isso e o seu contrário. Ou não é Seguro que tem falado da necessidade de nos darem mais tempo para cumprir o acordado? O que é isso se não a defesa da renegociação do acordo existente e, em bom rigor, um novo resgate? Perceba-se: por cada ano afastados dos mercados, mais dinheiro tem de nos ser emprestado pela troika. A única diferença é que Seguro defendeu um segundo resgate que nos aliviasse as metas e este Governo, se necessitar de um novo resgate (e tal necessidade era previsível desde a assinatura do memorando), deve tentá-lo negociar nas melhores condições possiveis, ou seja, tendo dado provas de que tentou ao máximo e se possível conseguiu cumprir o acordado no memorando de entendimento original (até porque é bom recordar que também é a nossa soberania que está em jogo). O sucesso deste Governo não se medirá pela existência ou não de um segundo resgate, mas sim pelas condições que nos forem impostas aquando desse mesmo resgate. É bom que se perceba isso.

 

Nota: Your Moment of Zen.

Segunda-feira, 30.01.12

Sufoco

«Portugal mantém o objectivo de voltar aos mercados em 2013». Passos Coelho dificilmente poderia adoptar um discurso muito diferente neste momento, mas também por isso tudo isto, pelo irrealismo que lhe está subjacente, é muito triste. À falta de definição e clareza, quanto menos o PM falar sobre o assunto, melhor. Estas cimeiras europeias devem ser cá um sufoco.

Partilhas

«When you want me, I am a woman. When I've hurt you, I am always German.»

 

Agradeço as palavras simpáticas do Adolfo Mesquita Nunes. Quanto à nossa partilha comum com Clara Ferreira Alves do gosto por Graham Greene, enfim, no que se refere à colunista do Expresso não me é novidade, até porque ela faz sempre por o lembrar. O que também me recorda que partilho este Mr. Brown com um tal de Richard Burton que protagonizou a adaptação cinematográfica da obra que dá o título a este blogue. Um filme tão medíocre que, tirando um ou outro momento, podia desaparecer sem deixar rasto que ninguém dava pela sua falta. Resta-me recordar que o Elvis Costello também usou «The Comedians» para título de uma letra sua, popularizada na voz de Roy Orbison; e o Alan Moore baseou-se nele para dar o nome a um personagem de «Watchmen». Está visto que, tal como escreve a Helena Sacadura Cabral no primeiro comentário ao post do Adolfo, «Graham Green tem esse especial condão de unir os mais desunidos. E até as gerações mais distintas.»

Mr. Brown às 11:06 | link do post | comentar | favorito

A quem servir o barrete

«O argumento torna-se ainda mais surreal quando pseudo-entendidos lêem e repetem sem pensar o que escreve Paul Krugman sobre os EUA. Lá, as taxas de juro estão a zero; em Portugal só com muita sorte cairão abaixo de 5% em 2012».

Domingo, 29.01.12

Quantos?

Constatação do dia: o jornalismo opinativo, do diz-que-disse, dos boatos, está em alta. E não é de agora, é de há muito tempo. O que é sempre um belo artificio para o jornalista fazer política ao invés de relatar factos e procurar a verdade. É junto das redacções dos jornais que se criam as narrativas que servem determinadas agendas políticas. Quantos casos das escutas em Belém existirão em Portugal?

Sábado, 28.01.12

O A.J. do "contenente"

Acordo com Madeira é nova face da «receita de empobrecimento». Na última quinta-feira, Nuno Garoupa bem escrevia nas páginas do Jornal de Negócios: «A tal política de crescimento que a esquerda berra foi seguida desde 2000 com efeitos nulos nesse mesmo crescimento e um passivo acumulado de dívidas (pois se há outra política de crescimento, o PS que explique porque a não aplicou nos treze anos que esteve no poder)». A receita para o crescimento económico é aquela que estava a ser aplicada na Madeira, só pode - o que demonstra bem a hipocrisia socialista nas críticas que fizeram aos buracos orçamentais madeirenses. A.J.Seguro quer ser o A.J.Jardim do "contenente", mal sabem os alemães com que tipo de povo foram-se meter: somos peritos a «gerar riqueza» com o dinheiro dos outros.

Mr. Brown às 18:04 | link do post | comentar | favorito

A sobrevivência do Euro e a soberania

«Budget consolidation has to be put under a strict steering and control system,» the proposal reads. «Given the disappointing compliance so far, Greece has to accept shifting budgetary sovereignty to the European level for a certain period of time.» O aviso também serve para Portugal: ou cumprimos a bem, ou cumprimos a mal o que acordamos com a troika. Mas tenhamos sempre preparado o plano B: a nossa saída do Euro.

Sexta-feira, 27.01.12

Última hora

Última hora, em grande destaque na edição online do Jornal de Notícias: «Mais um idoso encontrado morto em casa». Diz a notícia que tinha sido visto com vida pela última vez ontem. Repito: ontem. E acrescenta a jornalista: «esta semana, é já a quarta pessoa encontrada morta em casa». Permitam-me duvidar que seja só a quarta pessoa encontrada morta em casa esta semana. E acrescento: se isto vai passar a ser notícia, temos «últimas horas» no JN para o ano inteiro e várias vezes ao dia.

Obscuro e transparente

Neste caso de Jorge Silva Carvalho há algo que não deve ser ignorado: a Impresa lançou mesmo uma ofensiva contra a Ongoing. E a tal ofensiva não será alheia a provável privatização da RTP que ameaça levar Balsemão à ruína. Jornalistas e vários opinadores do grupo económico do militante número um do PSD, todos eles uns santinhos sem esqueletos no armário, malharam forte e feio em Silva Carvalho e na Ongoing. Mas tinham razão para isso, dirão alguns. Claro, claro que tinham. Tal como já imagino as mil e uma razões para malhar forte e feio na Newshold, sempre com a privatização da RTP na mente. Cuidado com a obscura Ongoing! Cuidado com a obscura Newshold! A transparente Impresa está aqui para vos defender. Ou defender-se, dirão os mais atentos. Pois por mim, que nem tenho simpatia por Relvas e discordo da forma como o processo está a ser conduzido, reitero: privatize-se a RTP tão cedo quanto possível e fique com ela quem fizer a melhor oferta. E a propósito de coisas obscuras, já bastaram as pressões que evitaram que este processo polémico da TDT incluísse um quinto canal generalista novo (que o tornaria, certamente, menos polémico), tal como tinha sido oficialmente anunciado. Mas em Portugal há polvos que julgam ter o poder de mandar mais do que os governos eleitos (e depois há sempre desculpas para manter o actual mercado fechado).

Feriados

Acabava ou não com este feriado?

 

 

 

Notas:

1. Os diferentes eleitorados estarão a ser influenciados pelo grau de apoio que têm em relação ao Governo.

2. Maior apoio ao fim dos feriados civis do que ao dos religiosos (somos um povo católico, habituem-se).

3. Mais uma prova de que o eleitorado da CDU é o mais conservador do país.

4. A sondagem pode ser consultada aqui.

5. Tenho pena que não exista - pelo menos, não consigo encontrar - um estudo de opinião destes com todos os feriados envolvidos.

Quinta-feira, 26.01.12

Harmonização galinácea

Comissão Europeia processa Portugal por não proteger as galinhas poedeiras. Haja quem na Europa se preocupe com o bem estar das galinhas e com a concorrência "desleal". Não se riam porque o assunto é sério. Reparem que entre os países processados, por mero acaso certamente, estão Portugal, Espanha, Itália e Grécia. Os países periféricos do sul, portanto. Que deslealdade a nossa para com os países ricos do norte mais as suas regrinhas de protecção das galinhas. Este mercado único tem muito que se lhe diga.

Santinho

Quanto mais cedo melhor. O assalto ao poder do maior banco privado português foi das coisas mais feias que aconteceu nos últimos anos. Um momento negro que fica como exemplo do pior que pode haver nas relações promíscuas entre poder político e económico, gerando custos reputacionais fortíssimos quer para o banco, quer para a economia portuguesa enquanto um todo - reforçando a ideia de que por cá os principais negócios estão sempre muito dependentes dos desejos e vontades do poder político do momento (dai que as escolhas na EDP nem surpreendam). Com, recorde-se, uma ajudinha, entre outras, dessa figura sinistra que é o comendador Berardo, Santos Ferreira saltou da CGD para o Millennium com o amigo Vara. O Armando já se foi, o Santos que se vá também.

Mr. Brown às 09:20 | link do post | comentar | favorito
Quarta-feira, 25.01.12

Assusta pouco

Bem-vindo ao lugar mais assustador do mundo, escreve-se na TSF. O título é cativante, tão cativante que tive vontade de saber que lugar era esse. Seguindo o link descobre-se que a jornalista refere-se à zona desmilitarizada da Coreia e à área de segurança conjunta em Panmunjom. Lembrei-me imediatamente do excelente Joint Security Area de Park Chan-wook. Mas se querem encontrar o lugar mais assustador do mundo deviam começar por um que não fosse visitado regularmente por turistas.

Mr. Brown às 12:34 | link do post | comentar | favorito
Terça-feira, 24.01.12

Das emoções

Uma petição para pedir a demissão de Cavaco Silva; apelos para que se ajude este PR a terminar o mandato com dignidade; onde é que já vi este filme? Terá sido a propósito do caso das escutas? Antes do actual Presidente da República ter alcançado a reeleição à primeira volta? Enfim: as declarações foram infelizes? Foram. Merecedoras de crítica? Também. Mas todo este exagero acaba por tornar a coisa ridícula.

Privilégios do poder

O aviso já tinha sido dado: Informação será "privilegiada" na futura RTP. O programa da RTP dedicado a Angola, que contou com a presença do ministro Relvas, foi absolutamente vergonhoso. Mas sobre a utilidade de Fátima Campos Ferreira e da RTP já tinha dado a minha opinião aqui. Isto é apenas mais uma gotinha num oceano. Tudo tão previsível.

«As dívidas gerem-se»

«Bondholders must surely realize that Portugal has very little realistic prospect of paying back its debts in full»

Mr. Brown às 12:23 | link do post | comentar | favorito
Segunda-feira, 23.01.12

Notas blogosféricas

1. O "memorando de entendimento" tardou a produzir efeito, mas João Gonçalves mudou finalmente de poiso. O Portugal dos Pequeninos entrou na galáxia Sapo e está com um visual muito bonito. Toca a actualizar o link.

2. O Ouriço entrou directamente para a barra lateral direita.

3. Agora também ando por aqui. A propósito, e aproveitando este post de um dos colegas da casa, faço minhas as palavras de Luís Naves sobre o Jardim de Micróbios, «um blogue com escrita de alta qualidade»: visitem-no que vale a pena.

Reinação

 

Quando volta e meia regressa à superfície a questão monarquia vs república, sempre pela voz dos mesmos gatos-pingados, recordo o senhor da foto e desisto de argumentação mais profunda. E se Cavaco estivesse a reinar? Pior, bem pior: e se D. Duarte Pio estivesse a reinar?

Domingo, 22.01.12

Quadratura do círculo

O líder do grupo parlamentar do PS defende que o Executivo deve ser solidário com os madeirenses e "duro" com Jardim.

Sábado, 21.01.12

Tratar da vidinha

Cavaco diz que as reformas dele "não chegarão para pagar despesas". De um presidente espera-se muito mais do que esta frase revela, mas não me posso mostrar surpreendido: muitas das críticas de Cavaco ao OE2012 já revelavam preocupação com a sua própria situação financeira. Nesse sentido ele não se comportou de forma muito diferente dos vários professores universitários públicos que vieram criticar o corte de subsídios na função pública, declarando-os iníquos e injustificados. Como cheguei a referir neste espaço, tais professores estavam a olhar demasiado para o próprio bolso, não conseguindo por isso formular uma visão mais abrangente que levasse em consideração a situação global de toda a sociedade. Cavaco comportou-se e comporta-se da mesma forma. Com a diferença de que não é um simples professor universitário público, é o presidente de todos os portugueses.

Sexta-feira, 20.01.12

Vale tudo?

Leiam o Henrique Raposo. Assim feito, permitam-me: no debate em causa não é a protecção da propriedade intelectual em si que está em causa. É a forma como, para o caso específico, se propõem a o fazer. E é ai que a porca torce o rabo: não pode (deve) valer tudo. E quer o que o Jacinto Bettencourt (de uma forma mais rebuscada, não fosse especialista no que se refere a direitos de propriedade intelectual), quer o que Rodrigo Moita de Deus (com recurso à graçola que lhe é caracteristica) defendem, não só é injusto como, na minha modesta e humilde opinião, estúpido. Mas tem uma vantagem óbvia: é dinheiro em caixa garantido. A questão é: podem garantir que estão a ir buscar esse dinheiro onde e a quem devem? Não. Claramente, não. E desafio qualquer um a demonstrar que estou errado.

 

Nota: argumentos tipo, país x, y e z já aplicam tal taxa ou já existe uma lei semelhante em vigor no nosso país, lamento informá-los, não me convencem e vão direitinhos para o baú das falácias.

Mr. Brown às 18:10 | link do post | comentar | favorito

O nome da rosa

Um sujeito «cujo nome não me ocorre» não foi reconduzido no cargo. Fez muito bem Francisco José Viegas.

Quinta-feira, 19.01.12

Deus nos acuda

Não há nada como a sátira, mesmo que involuntária e sem grande brilhantismo, para tornar evidente o rídiculo de certas ideias. Rodrigo Moita de Deus, no 31 da Armada, esforça-se por demonstrar isso mesmo. Ainda a propósito do projecto de lei 118/XII, a ex-ministra Canavilhas acredita, ou quer-nos pôr a acreditar, que «não são os cidadãos portugueses que devem pagar esta taxa. Esta não se devia notar no preço final do produto». Como é que alguém garante que o fabricante não irá repercutir a nova taxa sobre o seu cliente? Não garante e é mais do que provável que tal viesse a suceder. Mas reparem noutro pormenor delicioso, fosse mesmo essa a ideia, a de pôr os fabricantes a suportar a taxa e não o consumidor final - ideia absurda, mas ainda assim levemos a mesma em consideração -, permitam-me questionar: afinal, a que se destina esta lei? É que não consta que sejam os fabricantes quem irá realizar as cópias pelas quais o legislador diz ter intenção de compensar os autores. É preciso arranjar dinheiro para os autores nem que seja à força, é isso? Então, sejam descarados e usem os muitos impostos que já nos cobram actualmente, procedendo à sua redistribuição como muito bem entenderem, e não nos lixem mais a vida, ok?

Sinais

Esta é fácil: lá para fora é essencial vender a ideia de que estamos a ir além da troika. Marketing puro. Na realidade, parece-me que João Proença andará mais próximo da verdade. António Saraiva explica, em boa parte, porquê. Agora, não percebo do que Saraiva queria ser compensado, uma vez que também ele se opôs à desvalorização fiscal, tal como prevista no memorando. Mais: do que me foi dado a perceber, até pelos rostos dos parceiros sociais, pareceu-me que as confederações patronais estavam muito contentes com o acordo alcançado, ou terei lido mal os sinais?

Mr. Brown às 16:41 | link do post | comentar | favorito

Democracia

Só 56% dos portugueses acreditam que o melhor sistema é a democracia. Tendo em conta que no último estudo, de 2009, 51% dos inquiridos mostrou-se pouco ou nada satisfeito com a democracia e 49% considerou que a principal característica de tal sistema político devia ser «uma economia que assegure um rendimento digno para todos», não me admiro com este resultado em 2011. Nada que não fosse previsível: «A economia vai derrotar esta democracia».

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