Em mau Estado

O Estado social não pode tudo: corte de 10% no limite mínimo do subsídio de desemprego, 6,5% no do RSI e 2,5% no complemento solidário para idosos. Um ministro do CDS que demonstra que cortar na despesa, contrariamente à conversa das gordurinhas do Estado, passa acima de tudo por medidas extremamente impopulares. Note-se ainda que, a ir adiante, esta decisão não só afectará sobretudo a classe baixa e não a média, como não evitará o aumento brutal de impostos sobre todos os trabalhadores. Se ainda fosse preciso, dá uma ideia sobre o aperto orçamental em que estamos metidos. Aliás, a segurança social nesse aspecto é paradigmática: primeiro «défice» nos últimos dez anos e «mais 22,9% com subsídios de desemprego» este ano face a igual período no ano passado. Cheira a insustentabilidade por tudo quanto é lado.

Por outro lado, para quem acredita, estes têm uma solução mágica. Gosto sobretudo da proposta que passa por cortar a dívida para metade do valor actual (a que se soma a baixa dos juros para 0,75%), como se, para que tal aconteça, baste desejar e esse corte, seja de que forma for, não tenha de originar consequências duras para o nosso país. Entendamo-nos, qualquer pessoa séria compreenderá que a partir do momento em que se acene com um corte da dívida fruto de uma qualquer renegociação, com pouco mais se pode acenar porque não sabemos as condições que os negociadores do outro lado nos vão impor. É verdade que Cadilhe também pede uma renegociação da dívida - enfim, a partir do momento em que não conseguimos pagar a nossa dívida, não a conseguimos pagar, não há volta a dar e as coisas são o que são -, mas este sabe que alguma coisa terá de resultar dai. A mais flagrante, como o próprio parece ter concluído, será a necessidade de uma «redefinição das funções do Estado». Exactamente aquilo que os adeptos das soluções mágicas não pretendem abordar. Mas ou o Estado adapta-se àquilo que a sociedade portuguesa está disposta a pagar por ele ou, com ou sem perdão da dívida, continuaremos a definhar e a caminhar alegremente para a miséria.

Dito isto, claro que no mundo do pensamento mágico o nosso Estado vai manter-se tal e qual como está porque não interessa o que os nossos cidadãos estão dispostos a pagar por ele - nos dias que correm já nem é uma questão de «disposição a», mas antes de «capacidade para» -, pois basta acreditar que conseguiremos pôr outros cidadãos que não os portugueses a pagá-lo. Gostava de acreditar em magia.

Mr. Brown às 22:00 | link do post | comentar | favorito