Bicho-papão

Manuela Ferreira Leite, no caderno de economia do Expresso, argumenta que o «défice de 3% não pode ser o senhor absoluto», escrevendo que este «deixou de ser o farol que ilumina o caminho, para ser um sinal de alarme do precipício a que nos pode conduzir». A argumentação não é nova e remete-nos para os momentos finais do governo de Guterres, onde tudo começou a descambar irremediavelmente, bem como para os anos da senhora como ministra das finanças, onde o défice real foi mascarado com receitas extraordinárias. Essas receitas extraordinárias, popularizadas por esses dois ilustres membros do clube dos pensionistas, Ferreira Leite e Bagão Félix, eram já uma forma de ignorar o limite de 3%, cumprindo-o de forma artificial, mas mantendo o verdadeiro valor do défice muito acima do que seria desejável. Dito isto, infelizmente, há uma coisa em que Ferreira Leite tem razão: o défice de 3% previsto no Pacto de Estabilidade e Crescimento não era, não é, nem deve ser, o farol que ilumina o caminho, uma vez que se trata do tecto máximo, mas é típico de uma cultura de pouco rigor como a portuguesa, bem evidente nestas nossas proclamadas elites, almejar ao cumprimento dos requisitos mínimos e nada mais do que isso. É por isso que o paraíso social-democrata nórdico por estas bandas nunca passará de uma miragem. Se um défice de 3% é este bicho-papão, o que dizer de um superavit? É um ser mitológico que nem tão cedo iremos conhecer. Só o monstro da máquina do Estado é que já conhecemos todos muito bem e, está visto, nem tão cedo o afastaremos de perto de nós.

Mr. Brown às 19:18 | link do post | comentar | favorito