Soluções

Quando se começam por discutir soluções sem primeiro reconhecer o problema, dificilmente a discussão conduz a algo de útil, porque é dominada pelos efeitos “colaterais” das soluções, e não pela sua eficácia para lidar com o problema. A entrevista de Vítor Bento é recente e combina bem com este título do Negócios: Ferreira do Amaral: Taxa de desemprego pode ir até aos 20% se tivermos um corte de 4.000 milhões. Melhor exemplo de focar a discussão no efeito colateral e não na eficácia da solução em si não é possível encontrar. Contudo, já o disse uma vez aqui e reforço que Ferreira do Amaral é um dos economistas de esquerda, a par por exemplo de um Silva Lopes, que merece ser escutado e neste post de Luís M. Jorge é possível encontrar com maior detalhe os argumentos de Ferreira do Amaral contra o corte de 4 mil milhões da despesa, num argumentário contra o qual só me apetece dizer que comete a imprecisão de referir-se a uma descida do défice de 2011 para 2012 pouco acima de um ponto percentual quando o valor rondará os dois pontos percentuais. No entanto, reparem - e é nisso que Ferreira do Amaral se destaca de muitos outros que dizem coisas semelhantes -, ele acrescenta uma solução, na qual vem insistindo desde há muito: sair do Euro. Quem cita Ferreira do Amaral, deve citar tudo. Mas acrescente-se mais duas notas: 1) diz também Ferreira do Amaral que no FMI «não estão habituados a fazer programas para países que não têm moeda própria e muitos dos instrumentos que estavam habituados a usar não estão a funcionar. Deviam ter criado e discutido uma doutrina sobre como intervir em países sem moeda própria»; muito bem, mas reparem que Ferreira do Amaral também aparenta não saber que programa aplicar a um Portugal sem moeda própria, de tal forma que a solução em que continua a insistir é que voltemos a ter moeda própria; e 2) a saida do Euro também tem efeitos colaterais fortíssimos ou nem por isso? Pois, é que no fundo o Silva Lopes é que resumiu bem a coisa aqui: «Há coisas que me deixam muito transtornado porque não sei qual é a solução. Sei que tem que haver uma solução, mas quer para um lado, quer para o outro, a solução é terrível». Mas sempre que somos confrontados com uma das soluções terríveis achamos que tem de existir uma melhor. E vai ser assim até o dia em que deixarmos de poder achar o que quer que seja, porque há problemas que não se podem arrastar eternamente e uma das solução irá impor-se à força.

Mr. Brown às 20:48 | link do post | comentar | favorito