1. Primeiro, um reconhecimento: não contava que o CDS fizesse a figura triste que está a fazer e nunca achei que por esta altura fossem divergências entre os dois partidos da coligação que estivessem à beira de lançar o país numa crise política. Sobre as minhas limitações enquanto analista, estamos conversados. Dito isto, permitam-me reafirmar que não temo a crise política, se ela tiver de vir, que venha. Mais ainda: defendi que Passos Coelho devia ter-se demitido, alegando não ter capacidade para seguir o caminho que tinha escolhido para o país, logo após a decisão do Tribunal Constitucional. O meu único receio é que à pala da conversa da crise política, entreguem o poder a um qualquer Monti sem que este tenha de vir a uma campanha eleitoral explicar-me o que pretende fazer.
2. Este texto do Henrique Raposo, secundado pela Maria João Marques, é um bom ponto de partida para discutir o ar que se respira hoje em Portugal. Entendamo-nos, não é o provocar da crise política que tornará o CDS irresponsável, mas antes o facto de não ter uma verdadeira alternativa ao que está a ser feito. Se tem, alguém que me explique qual é. Depois, escreve o Henrique, que este é um «orçamento injusto e que protege o status quo». Em parte terá razão, mas torno a interrogar: que propostas tem o CDS, ou quem quer que queira chumbar o actual orçamento, para o tornar mais justo? Que outros cortes na despesa/aumentos da receita propõe o CDS enquanto partido do Governo e que Vítor Gaspar não tem aceite? O ar está cheio de retórica e politiquice, mas de concreto, nada. Não me peçam para elogiar isso, porque por norma não elogio o vazio. Como pequena nota de rodapé, acrescente-se que o mesmo Henrique que sinaliza a irresponsabilidade das estradas que foram construídas, refere-se ao OE para 2013 como um que defende o status quo, talvez ainda não tenha reparado que a construção de estradas parou e as empresas de construção civil estão quase todas à beira da falência. Um pormenor, certamente. Mas estando numa de elogios e de status quo, permitam-me fazer o elogio do Álvaro e o desprezo da Cristas.
3. Para terminar, quer-me parecer que a história que se desenrola agora tem algumas semelhanças com a que se desenrolou entre Sócrates e Passos Coelho no período 2010-11. Só muda o facto de Passos ter passado a desempenhar o papel que coube a Sócrates e Portas o que era de Passos. Da outra vez, houve um jogo do gato e do rato para apurar quem ficava com a responsabilidade de termos recorrido à troika, quando era certo que a troika, mais cedo ou mais tarde, viria. Agora, andam num jogo do gato e do rato para saber quem fica com a responsabilidade de um «segundo resgate» - perdão de dívida incluído? - quando tal começa a assumir contornos de inevitabilidade. Um jogo que tem, para mim, muito pouco interesse.