Executivo que se preze que governe a pensar em eleições sabe que, se necessárias, as medidas duras devem ser aplicadas em força no inicio do mandato e mais tarde, aproximando-se as eleições, é preciso começar a tentar que a economia ganhe balanço. Cá está: «Chegou o momento do investimento». Vem ai o crescimento. Ou talvez não, porque desta vez a crise é de outra natureza. Mas adiante: esta figurinha, de muito longe o pior Presidente da República pós-25 de Abril que este país conheceu, apesar do ar muito sério que ostenta, não se cansa de mostrar a sua mediocridade, a de quem não pensa além do curto-prazo e, especialmente, no bem-estar dos seus. Entenda-se: o bem-estar de alguns camaradas de partido. Não que discorde da desdramatização das eleições antecipadas, é só os partidos de coligação desentenderem-se de vez e assim entenderem que muito me agradaria ter eleições, até porque se estivesse na posição de Passos Coelho já as teria provocado há muito tempo, recusando-me a seguir um guião forçado que nunca seria o meu. Passos e Portas, que neste jogo do gato e do rato às vezes até parece que querem essas mesmas eleições antecipadas, só não pretendendo ficar com o ónus de as terem provocado, agora até as poderiam provocar e desresponsabilizar-se dos seus efeitos dizendo qualquer coisa como: «todos os partidos de esquerda pediram eleições antecipadas? Aqui as têm, agora não se queixem e assumam as consequências das mesmas». Mas voltemos e terminemos na figurinha já referenciada, o problema desta é que quer um presidente que, à sua imagem e semelhança, deite abaixo um Governo que, até prova em contrária, conta com um apoio inegável e absolutamente maioritário na Assembleia da República. A ideia, que seria apenas a repetição de história já antiga onde a figurinha foi protagonista central, é toda ela original, inovadora e brilhante, toda uma nova forma de centrar o nosso jogo democrático: os ciclos eleitorais dos governos PSD/CDS, denominados «governo de direita», deviam ser reduzidos a metade do ciclo eleitoral, precisamente aquele onde ainda só tiveram tempo de aplicar as medidas duras. Passada a fase mais dura do ciclo, este tem de chegar abruptamente ao fim de forma a dar a oportunidade ao PS de beneficiar da potencial bonança.
Se o primeiro-ministro demitir-se vem ai um segundo resgate? Iupi! Mais tempo e mais dinheiro. Demite-te, filho. Demite-te. E faz feliz a tua família que te adora. Deixa a quem está mortinho por chegar a primeiro-ministro, como tu outrora já estiveste, a responsabilidade de nos governar neste momento difícil. Se bem que Seguro não me parece homem para gritar com a troika. Mas mortinho para chegar ao poder está, ou não estará? Ai que isto não tem conserto!
A explicação para muitas piruetas que se têm assistido, a começar por alguns governantes deste país. A troika é má e os políticos precisam de governar de acordo com a vontade do povo. Até porque, como se sabe, não foi por passarmos por difuldades que tivemos de chamar a troika, mas antes passamos por dificuldades porque tivemos de chamar a troika. Isto faz sentido? Não, não faz. Mas o quê que isso interessa. A lógica não é para aqui chamada e o eleitorado já não está preparado, nem tem disposição, para abdicar das suas crenças.
É inacreditável como é que neste país ainda se discute folgas e almofadas, agora até o próprio Governo ajuda à festa, quando é praticamente certo que não cumpriremos as metas do défice acordadas. As únicas folgas que temos conhecido são aquelas que a troika nos vai dando a cada revisão em alta do objectivo para o défice. As medidas não têm pecado por excesso, mas sim por defeito. Desta vez não será diferente.
Para fecharmos a sétima avaliação, a fazer fé nas notícias que se conhecem, o Governo - de coligação PSD/CDS, é sempre bom lembrar - irá comprometer-se com a troika, caso não encontre outra alternativa, a avançar com a já célebre taxa sobre os pensionistas que tanto irritou o partido dos reformados. Apesar disso, o CDS nega que tenha cedido no que quer que seja. Ora, se a tal taxa não fosse uma possibilidade real, que sentido faria ser incluída no texto do fecho da sétima avaliação? O Partido de Portas, cada vez mais, adopta a atitude do PS: sente-se forçado a subscrever documentos que não conta ou não pretende levar a sério? Enfim, o CDS pode manter o discurso de que tudo fará para que tal taxa não venha a seguir adiante, o que não pode, se é um partido de gente séria, é vir com a treta de que de modo algum permitirá que ela siga adiante. A fronteira é mais flexível do que deram a entender. Dito isto, acrescente-se: há quem ainda finja não ter percebido, mas com PSD, CDS ou PS no Governo, enquanto por cá estiver a troika, a nossa fronteira de possibilidades no que toca ao leque de medidas disponíveis para serem adoptadas é muito limitada. Se Portas veio dizer o que disse e agora sujeita-se a esta mini-humilhação (e admito que a mesma é pequenina porque não acredito que a probabilidade da medida seguir adiante seja muito alta), isto não nos diz tudo o que há a saber sobre a margem de manobra dos nossos governantes? Ah, já sei: tudo seria diferente se Gaspar não fosse um homem da troika. Nesta última, acredita quem quiser. Eu não acredito.
Cheguei à conclusão de que, por muito que me esforce, não consigo fazer melhor do que esta senhora. Ou seja, por momentos compreendi o que é estar na pele de um socialista e ver-me ultrapassado nas críticas ao Governo pela nossa dama de lata. Mas é compreensível: o desejo de vingança e o ódio pessoal são forças poderosas na altura de fazer brotar na mente de cada um as piores considerações possíveis sobre aqueles a que tais sentimentos se dirigem. Dito isto e finda esta experiência, estou aqui a pensar se no futuro não poderia fazer outra semelhante, mas agora aplicada ao tipo de comentador onde se insere este «zandinga». Enfim, a verdade é esta: perante o rol de comentadores de direita que desfilam nas nossas televisões, por vezes dou por mim a pensar que o comentador Sócrates é um tipo absolutamente suportável.
O relatório da OCDE dá especial atenção à necessidade de políticas para o desenvolvimento económico. Neste contexto, defende uma descida dos impostos, nomeadamente do IRC e também a redução das contribuições para a Segurança Social. A sério, andam a encomendar estes estudos porquê e para quê? Baixar o IRC e a célebre TSU, é esta uma das brilhantes conclusões da OCDE para promover o crescimento económico que, como todos sabemos, é uma ideia que não tinha passado pela cabeça de ninguém cá em Portugal. O problema deste Governo nunca foi não ter informação suficiente sobre o que precisava de fazer, antes pelo contrário, foi não ter conseguido fazer tudo o que sabia que tinha de ser feito. Agora anda à procura do apoio das instituições internacionais para levar a cabo aquilo que não quis fazer logo no inicio. Triste.
Ao contrário da drª Ferreira Leite, julgo que o Governo tem dado mostras de grande humanismo. Humanismo, por exemplo, na relação com os CEO e accionistas das grandes empresas rentistas e da banca (ouviram o apelo e não se deixaram ficar). Quanto aos de baixo, a ralé, aplica-se a velha máxima: «se não têm pão, comam brioches».
«O centro-direita perdeu as eleições», continuou Paulo Portas, salientando que a soma dos votos do PSD e do CDS-PP não excede os 36% e considerando que este é «o resultado mais fraco (do centro-direita) desde que há eleições legislativas em Portugal». [...] «Não há nenhum país civilizado no Mundo onde a diferença entre trotskistas e democratas-cristãos seja de um por cento», disse Portas, referindo-se à ascenção do extremismo e radicalismo de esquerda em Portugal. Se foi assim em 2005, pode ir-se preparando para 2015.
Isto foi com o Governo a apostar tudo por tudo nas exportações. O que seria se não o tivesse feito. Enfim, com este Governo, mesmo naquilo em que este se empenha a 200%, os resultados obtidos face aos objectivos nunca passam da mediania. Ou seja, não é um problema de empenho, é mesmo de profunda e terrível incompetência.
No Conselho de Ministros, a pergunta que andará constantemente no ar deve ser esta: o quê que inventamos desta vez que não esteja conforme com a Constituição? Enfim, cada vez é mais evidente que só no ano em que o Governo não conseguisse ter, pelo menos, uma das medidas por este aprovada declarada inconstitucional é que se demitiria.
1. Como meta, fixa um crescimento sustentável da economia nacional acima de 2% ao ano, em 2020.
2. Governo prevê crescimento do PIB igual a 2,2% em 2017
3. Ou o crescimento previsto para 2017 não é sustentável ou o Governo trabalha com base em previsões em que, verdadeiramente, não acredita. Aposto na última.
O regresso aos mercados é um meio para atingir um fim. O Governo, às páginas tantas, ficou tão obcecado com o meio que esqueceu-se do fim. Dito isto, arrisca-se a obter esse enorme sucesso que é regressar aos mercados para que depois, questionado sobre o que se segue, encolher os ombros e não ter mais nada a dizer, ou a exibir, do que isto: desemprego, miséria e pouco mais.
Acho cada vez mais que muito do que aconteceu nos últimos dias foi ensaiado. Teatro, é só teatro. Passos fez a comunicação ao país na sexta sabendo de antemão o que Portas diria no domingo. Tudo o que se passa segue o guião combinado entre os dois. É por estas e por outras que pouco do que esta gente diz é para levar a sério. O que parece divergência mais não é do que sinal de uma coligação que está de pedra e cal.
«O primeiro-ministro sabe e creio ter compreendido. Esta é a fronteira que não posso deixar passar». Ou o primeiro-ministro é de compreensão muito lenta ou não teria feito o discurso que fez na sexta-feira. Isto não são divergências democráticas saudáveis no seio de partidos de coligação. Isto é um governo esfrangalhado. A crise política só não foi oficializada, mas ela já está bem viva entre nós e só a múmia que temos em Belém é que está com alguma dificuldade em o compreender. Mais, perante este discurso de Portas, nem faz sentido falar num isolamento do Governo face ao país. O que há, objectivamente, é o isolamento de Passos Coelho e Vítor Gaspar face ao resto do país. A manutenção destas duas figuras como números 1 e 2 do Governo é insustentável.
Passos Coelho, o hemisfério esquerdo do cérebro governamental, anuncia uma coisa à sexta. Ao domingo já está Paulo Portas, o hemisfério direito do cérebro governamental, a lançar para a imprensa que há no Governo quem ache que uma das medidas apresentadas é para cair. Lamento, mas isto não é forma de governar. Meus senhores: demitam-se. Demitam-nos. Alguma coisa. Isto assim é insuportável e não nos leva a lado algum.
«Governo fez em dois anos o que ninguém fez nos últimos quinze», terá dito Passos Coelho. Foi pena, pelo que percebo, não ter concretizado esta observação com dados objectivos que calassem todos aqueles que ficam irritados quando confrontados com a mais pura da verdade. Na queda da economia; no aumento desemprego; na perda do poder de compra; no encerramento de empresas; no empurrar de milhares e milhares de portugueses para fora do país; na contínua subida da dívida pública para valores estratosféricos; enfim, por tudo isto e muito mais, é impossível contestar que se esteja a fazer agora muito mais do que foi feito nos últimos quinze anos. Dito isto, chegamos à seguinte interrrogação: se os governos dos últimos anos foram miseráveis, e foram-no, o quê que isto nos diz acerca do actual? Uma fábrica absolutamente miserável de produzir miséria. E como o ritmo da produção, que segue à risca a receita da austeridade e tem por base um processo de fabrico que se pode trazudir por «corta aqui, corta acolá, corta em tudo o que puderes», segue a bom ritmo, não pode parar, custe o que custar. O Governo só ficará satisfeito quando fizer o que ninguém fez nos últimos cem anos.
A artista de arte pindérica do regime vai de cacilheiro rebocado para Veneza. Até aqui, tudo bem: não importa o que penso da arte da artista se há tantos que pensam diferente de mim. O que me preocupa é ouvir falar em apoios estatais sem que seja esclarecido imediatamente que tipo de apoio estamos a falar e montantes envolvidos. E não é à artista que deve ser feita essa pergunta, é a quem nos (des)governa. É que, enfim, a cidade onde se realiza a Bienal, pelas últimas notícias de que me recordo, afunda-se todos os anos mais uns milímetros, mas com esse afundanço posso bem, o que não posso é com o afundanço do nosso Estado à custa de dinheiro desbaratado em tudo e mais alguma coisa.
Acho que consigo fazer melhor, pelo menos, do que a Ferreira Leite. A partir deste domingo e até à próxima sexta-feira vou tentar uma experiência: neste blogue não existirá um único post de compreensão para com as medidas tomadas pelo Governo. Vai ser malhar e malhar até fartar. E para malhar vai valer tudo, desde usar argumentos em que eu próprio não acredito até dobrar a realidade para servir o meu propósito. Provavelmente, muitos dirão, isto não terá qualquer utilidade, mas sempre quero ver como é que me sinto na pele de alguns comentadores da nação que são autênticos casos de estudo.
Muito bom. Mas no fundo, nós, que assisistimos ao filme, sabemos perfeitamente que Portas, homem de múltiplos "talentos", a dissimulação sendo o maior de todos, matou o partido dos contribuintes há algum tempo, embora continue a fazer o seu querido CDS-PP passar por este.
Redução dos gastos em pensões e função pública. Enfim, o monstro que tem de ser derrotado. Custe o que custar. Isto se queremos crescer e não definhar, está claro. O resto é treta. E treta é o que ocupa 90% do espaço opinativo da comunicação social nos dias que correm. O país tem de encontrar soluções que lhe permitam baixar as taxas dos impostos e cortar na despesa. Dito isto, já se fala de novo em inconstitucionalidade. Como os percebo. E ainda mais percebo a irritação manifestada imediatamente por alguns quando descobriram que a Contribuição Extraordinária de Solidariedade foi declarada constitucional. Perceberam logo as portas que tal decisão abria. Se bem que estes juízes do TC são de uma originalidade extrema e por isso mesmo não são de fiar. Acrescente-se que apesar de tudo o que será dito a propósito das medidas anunciadas e cuja aplicação ainda está em aberto, de tímidas que são face à situação de urgência em que nos encontramos, passavam perfeitamente pelas medidas que, imagino eu, um Governo PS apresentaria ao país na lógica da austeridade não por gosto, mas por necessidade.