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Programa eleitoral do Partido Socialista
O programa do PS foi praticamente reduzido a metade das cento e trinta páginas do programa de 2009. E das actuais setenta páginas, é à nona que o texto propriamente dito tem inicio. E abre hostilidades com o tema da crise política, afirmando ser clara a centralidade da questão da responsabilidade política. E para o PS é claro que até no programa eleitoral é necessário malhar no PSD e atirar responsabilidades pela situação actual para cima do maior partido da oposição. Segue-se um breve resumo das exigências que serão colocadas ao próximo Governo, nomeadamente enfrentar e superar os efeitos da maior crise económica mundial dos últimos oitenta anos, um número menos redondo que os 100 anos a que Sócrates havia feito referência, mas que visa afastar a Grande Depressão da década 30 das contas. Depois, até à página 21, mais do que estarmos perante um programa eleitoral, somos confrontados com um manifesto propagandístico às virtudes da governação socrática. Segue-se, entre a página 25 e a 30, um mero enunciar de intenções e a referência habitual à crise internacional e às políticas europeias. Nestas páginas, contudo, encontra-se uma observação completamente surreal, quando é dito que tendo em conta a base comparável, isto é, o mesmo universo das administrações públicas considerado para a determinação do défice de 2009, o défice de 2010 foi de 6,8% do PIB, isto é, menos 2,7 pontos percentuais do que no ano anterior. Os problemas com esta frase são tantos que é difícil saber por onde começar, digo apenas que não só o défice de 2010 não foi 6,8%, como o défice de 2009 também foi revisto para 10%, o que o documento também faz por ignorar. Lá para a página 35 entramos, finalmente, em algo que se assemelhe a um programa eleitoral, mas na prática não passa do enunciar de propostas já implementadas ou mero processo de intenções, como o pleno cumprimento da nova escolaridade obrigatória de 12 anos; a consolidação da aposta nas energias renováveis e a afirmação do sector exportador. Enuncia seguidamente o PS aquelas que considera ser as questões-chave para o país. A primeira, justiça e competitividade, é arrumada em página e meia de banalidades; segue-se a inserção dos jovens na vida activa que também de concreto nada apresenta; já no terceiro tópico da reabilitação urbana aparece a primeira medida digna de registo e que ainda assim peca por significar quase nada, refiro-me à criação de uma nova taxa autónoma de 21,5%, em sede de IRS, para os rendimentos de arrendamentos. Vamos na página 41 de 70, e o programa do PS tem uma medidinha digna de registo. A última área das chamadas questões-chave é a de reformar a organização do Estado e o sistema político. Meus caros, são duas páginas inteiras de palha, com enunciados tipo o PS reafirma a sua vontade de promover; ou o Governo do PS já tomou a iniciativa de lançar um amplo debate público; ou o compromisso do PS é contribuir para a construção deste bloco social em favor da regionalização; e ainda consideramos [...] que se deve abrir um debate sério sobre o modelo de organização e funcionamento das áreas Metropolitanas de Lisboa e Porto.
Chegados aqui, já ultrapassamos os primeiros quatro capítulos do 'programa eleitoral' do PS, incluindo um com o título as nossas prioridades políticas. Diga-se que para prioridades é demasiado óbvio não terem sido alvo de estudo sério e profundo sobre o que fazer nas áreas abordadas, e se assim sucede nas prioridades políticas, pior é n'as orientações sectoriais, o sexto capítulo. Nestas, digno de registo, surge a promessa de eliminar cerca de um milhar de cargos dirigentes e equiparados; e proceder à fusão ou extinção de mais de 60 organismos e serviços da administração central do Estado. E com isto já vamos na página 52 e chamar programa eleitoral a tal documento é uma fraude.
Mas continuemos, porque os dois tópicos seguintes são o da consolidação orçamental e o do crescimento económico. Nesta fase lê-se e não se acredita: a redução do défice orçamental é um imperativo nacional e a forma da sua concretização também não oferece dúvidas: faz-se mais pelo lado da redução da despesa do que pelo lado do aumento da receita. Caso para afirmar: olha para o que digo, não olhes para o que fiz. E o que promete de concreto o PS nesta fase para reduzir a despesa? Nada, limita-se a abordar genericamente o que já vinha no PEC4 ao nível da fiscalidade (ou seja, actuação do lado da receita). O espanto devia ser grande, mas creio que tal coisa já não espanta ninguém. Quanto ao crescimento, à falta das grandes obras públicas dos programas anteriores, nada sobra ao PS que não o enunciar de intenções, tipo ser também necessário fomentar a educação para o consumo, prevenir o sobreendividamento das famílias e promover a poupança e um consumo sustentável. Como? A «troika» que o explique.
Seguem-se duas páginas e meia - a contrastar com a página e meia dedicada à justiça - para a promoção do ambiente e valorização do território; depois vem um tópico em defesa do serviço nacional de saúde, onde o problema da sustentabilidade do sistema só muito ao de leve é abordado ao ser enunciada como prioridade a revisão do sistema de comparticipações, tomando em conta as necessidades dos doentes; alargar, progressivamente, a prescrição por DCI a todos os medicamentos comparticipados pelo SNS, impulsionando ainda mais os genéricos. Segue-se a protecção social, onde é explicado que por um lado o PS tratará de consolidar o que já foi feito, por outro lado garantirá a sustentabilidade do sistema de pensões. Como? Mais uma vez deverá ficar para a «troika» decidir.
Já vamos para a página 62 e confesso que a leitura de tão grande vazio já cansa. Não querendo dar descanso, segue-se mais um enunciado de intenções sobre a promoção da qualificação das pessoas; a promoção da identificação cultural e da criação artística; o aprofundamento da cidadania e a promoção da igualdades; e há inclusive um tópico final, que ocupa tanto espaço quanto o que foi dedicado à justiça, denominado promover a actividade física, o desporto e a qualidade de vida. Chegamos ao fim da página 66. As restantes 4 não são muito diferentes de todas as restantes, estão vazias de conteúdo.
A verdade é que se o programa é isto, bastavam duas páginas, não mais do que isso. Apresentar isto como o programa eleitoral de um partido de (e no) poder, é gozar com os eleitores. Mas é gozar mesmo.
2. O Tomás Vasques no que aqui escreve salta um acontecimento, que é aquele que o Governador do Banco de Portugal nas suas declarações não ignora: a adesão ao euro também foi uma oportunidade para «mudar de vida». Em boa parte graças aos governos do engº Guterres não a soubemos aproveitar.
1. «O Estado Social foi posto em causa por quem construiu estádios»
PS compromete-se a eliminar mais mil cargos dirigentes e extinguir ou fundir 60 organismos. Desculpem-me, mas o PS apresentou o seu programa eleitoral ou esteve a fazer humor? Se afinal acha que isto deve e é possível de ser feito, como é que ainda não o foi? Como é que esta gente tem a lata de apresentar isto como uma grande novidade programática já depois de termos recorrido ao FEEF? É que não sendo isto humor, é mais um soco no estômago de todos os portugueses que de uma ou de outra forma têm sido afectados pelos diversos sacrifícios que o PS tem imposto. Diga-se ainda que o programa do PS denota um vazio completo de ideias, ou seja, é a garantia de que nada mudará face ao que foram os últimos seis anos - o rumo contínuará a ser o mesmo, o mesmo rumo que nos levou à bancarrota, e eles proclamam o seu rumo com um sorriso no rosto. Para terminar, diga-se que este vazio programático é o assumir por parte do PS que mudanças, a existirem, só por parte das propostas da «troika». Ora, se o PS assume que a parte séria e mais importante das reformas estruturais futuras ficará entregue à «troika» - e o PSD, a avaliar pelo que tem sido divulgado, não adoptará um posicionamento muito diferente -, isto é o assumir por parte dos partidos do centrão - de onde sairá o próximo Governo - que nas próximas eleições só interessa uma e uma única coisa: Sócrates deve ou não ser penalizado pela governação dos últimos seis anos? A resposta parece-me evidente.
Por Maria João Avillez, é só pular para o minuto 30.
Pensar em Sócrates como líder de um Governo que resulte de um consenso alargado entre, pelo menos, os dois maiores partidos nacionais é um contra-senso. Sócrates, por natureza, não partilha o poder com ninguém. Embora, na luta pela manutenção do poder, Sócrates esteja disposto a iludir os mais ingénuos.
"o mais engraçado foi ouvir o pupilar dos pavões durante a entrevista"
... a prova de que consolidação orçamental para o governo socrático equivale a actuar do lado da receita:
Não satisfeitos com o pódio no crescimento da despesa, fizemos igual proeza quanto ao crescimento da receita. Parabéns ao Sócrates, pá! Há que alimentar o monstro voraz.