Olvidar
Ontem, no Prós & Contras, um momento delicioso: o professor Ferreira Machado explicava que não podíamos ignorar as nossas responsabilidades pela situação em que nos encontramos e dava exemplos de políticas que foram manifestamente erradas. A seguir a palavra passa para Pedro Lains, que logo explica que esta coisa de andar a atirar culpas não nos leva a lado nenhum. Pois não, pensei eu, é por isso que alguns têm a lata de dizer que o «país estourou» nos últimos seis meses e há quem acredite nisso. Esta gente sempre que pode monta uma firewall que nos impede de discutir o passado. Esta prática de branqueamento, de insistência no reset à nossa memória, de esquecimento, só é útil para quem implementou as políticas erradas do passado e para quem as defendeu. Façamos por esquecer culpas passadas e concentremos a culpa nos responsáveis do presente. Que cómodo para tantos que por ai andam!
Veja-se como entre os "opinadores" dos mass media há uma larga fatia de gente que cavou o buraco onde nos enterramos e que aparece agora, com ar muito sério, a dar lições sobre como é que saímos do buraco. Somos um país pequeno, onde todos são amigos de todos e os dinossauros intocáveis proliferam. Mandar para a prateleira os responsáveis pela situação em que nos encontramos era coisa para ferir muito boa gente. Então, olvidemos. Tapemos os olhos. Façamos de conta que não nos lembramos do que esta gente defendeu, nem do buraco que cavaram.
Mas a verdade é que também gostaria de olvidar o passado. Podia ser útil, reconheço. Virar a página. Mas para isso era preciso que os culpados do passado desamparassem a loja. Fizessem como António Guterres que assumiu as suas responsabilidades e desapareceu sem deixar soldados no terreno a preparar o seu regresso (nesse sentido, o melhor dos mais recentes primeiros-ministros). Contudo, como alguns recusam em reconhecer os seus erros e a desaparecer da minha vista, permitam-me que também me recuse a esquecer todo o mal que fizeram ao país. Andar a atirar culpas não nos leva a lado nenhum? Talvez, mas prestar atenção e seguir os conselhos dos que defenderam as políticas que levaram o país à falência ainda menos nos leva.
