Parados no deserto
Estes dados, em combinação com o gráfico a que fiz referência aqui, fazem por lembrar o acerto da estratégia de Vítor Gaspar, que era, aliás, a estratégia da troika. Na questão do défice, podem olhar imediatamente para o défice estrutural que dá uma ideia relativamente clara da forma como este tinha vindo a ser significativamente reduzido (o saldo global pode servir para alguma coisa se a este retirarem o valor das medidas pontuais). Por outro lado, aquilo que estes dados nos recordam é o absoluto fracasso da consolidação orçamental do ano de 2013, onde o défice mantém-se praticamente inalterado face ao ano transacto. O quê que foi permitido em 2011 e 2012 que em 2013 não o foi? O quê que fizemos nesses anos que em 2013 deixamos de poder fazer? Recordam-se do Tribunal Constitucional e do recurso ao mais brutal aumento de impostos de que há memória, não se recordam? E recordam-se como nem com o mais brutal aumento de impostos de que há memória e uma mitigação dos cortes na despesa, o Tribunal Constitucional deixou de insistir que esses cortes mitigados continuavam a ser inconstitucionais, não se recordam? Não é por isso de estranhar que a despesa, que vinha em clara rota descendente, com descida de 51% do PIB em 2010 para 47% do PIB em 2012, tenha pulado para os 49% do PIB em 2013. E sem corte na despesa não vale a pena sonhar com consolidação orçamental efectiva. A via do aumento da receita está mais do que esgotada. E ao bloquearmos a outra via, a da redução do défice pelo lado da despesa, a nossa economia até pode ter sofrido menos, mas sofreu à mesma e acabou o ano sem sair do sitio onde estava. Andar no deserto com calor provoca maior sofrimento do que descansar sentado, mas a paragem não nos mete mais perto da meta, bem pelo contrário. E cada vez estamos mais dependentes de alguém que nos arranje a água para sobrevivermos no meio deste deserto em que nos encontramos. E quanto mais dependentes estivermos para assegurar o básico, menos sentido faz a conversa patrioteira. Ser patriota, nos dias que correm, é pretender acabar o mais rapidamente possível com o défice e a dependência do exterior. O resto é treta política.

