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Você poderia saber facilmente pelos jornais que estava a ser investigado, só não saberia quando o deixaria de ser. Parece que vai deixar de ser assim porque a nossa justiça atreveu-se a investigar uns angolanos.
Presidente angolano anuncia fim da parceria estratégica com Portugal. Antevejo que a nível privado as coisas sejam tratadas de outra forma que não aquela que o discurso público dá a entender. E isto acontece porque um ministro descuidado decidiu anunciar publicamente um pedido de desculpas que, quanto muito e ainda que fosse absolutamente necessário para servir qualquer interesse estratégico nacional, nunca deveria ter saído da esfera privada. Se querem fazer realpolitik, ao menos arranjem um tipo competente para levá-la adiante.
Se fosse ministro da justiça, depois de uma destas, ou saia Machete ou saía eu. Porque o caso é muito grave.
Se não fosse a Forbes nunca descobriríamos isto. Nem nos passava pela cabeça que assim fosse. Porque nós, ao contrário dos americanos, estamos longe de estar numa posição privilegiada para saber o que se passa e como se fazem as coisas em Angola. Se a história da origem da riqueza de Isabel dos Santos tem interesse para o público - e inegavelmente tem, é de longe a notícia mais lida no Económico neste momento - porquê que - e a minha memória pode estar a falhar - recordo-me tão mal de longos e apurados trabalhos de investigação feitos pela imprensa portuguesa sobre a matéria? Bem, uma vez no Público falou-se e deu-se enorme destaque à questão dos direitos humanos em Angola e houve, na classe jornalística, quem ficasse muito chateado com isso porque aquilo era contrário ao interesse nacional. Olhando para os interesses de Isabel dos Santos em Portugal, não deve faltar quem ache que o silêncio é a melhor forma da nossa imprensa lidar com o assunto. E, sim, sou dos que acha que independentemente da origem do dinheiro da Isabelinha, se ela quiser vir cá «investir», deve encontrar as portas abertas; mas, não, o jornalista não deve guiar-se por interesses económicos e deve ter como função informar e procurar toda a verdade. Que num caso com manifesto interesse público não o faça - preferindo antes destacar trabalhos feitos noutros países -, é revelador daquilo em que está transformada a nossa imprensa.
Podia ter sido mais criativa: faltou dizer que os ovos era ela quem os punha. Afinal, com muito trabalho, fazem-se milagres.
Uns ameaçam; o outro promete fazer o que for preciso para que a ameaça não se concretize, até porque importa não chatear «um dos grandes líderes africanos»; mas igualmente engraçado é o jornal referenciado que levanta a ira dos angolanos, isto porque noutros tempos era assim: «Por isso, levantar a questão dos direitos humanos em Angola durante a visita de José Sócrates pode ser politicamente correcto, mas não retrata a situação e é contrário ao interesse nacional». Foi assim até os angolanos ameaçarem os interesses do grupo a que o jornal pertence.
O lado bom e o lado mau. A primeira encontra-se em destaque no Sol, a segunda no Expresso. Mera coincidência, certamente.
Não gosto de ver governantes portugueses a actuarem como lambe-botas dos governantes angolanos.
Agora criticam-nos na Europa por andarmos a tentar atrair investimento angolano? Não fosse a opinião de um socialista. Socialista e alemão: um aviso para aqueles que andam a proclamar que a queda de Merkel nos será benéfica. Mas é o declínio certamente: só o nosso declínio pode explicar que sejamos criticados por um lado por vivermos na dependência de dinheiro dos parceiros europeus (coisa sobre a qual acho aceitável que líderes europeus se pronunciem) e por outro por irmos procurar dinheiro junto de outros parceiros (inaceitável que da Europa nos venham dar lições a esse respeito). E recorde-se que no caso especifico falamos de um povo que tem ligações históricas connosco: em Angola falam português e não alemão. O senhor Schulz parece que nos quer pobres e domesticados. Perante isto, parece-me cada vez mais evidente que entre os objectivos do actual Governo deve estar o de nos libertar de algumas amarras europeias - o que mais do que justifica que andemos atrás de capitais angolanos, chineses, whatever. E não, não estou necessariamente a falar da saída do Euro, mas estou certamente a falar da necessidade de não abdicarmos permanentemente da nossa soberania em troca de uma maior integração europeia. O federalismo com que alguns sonham não é solução. Pelo menos nos tempos mais próximos.